Se você ainda acredita que alguém
tentando enganar outra pessoa irá suar frio e evitar o olhar do
interlocutor, surpreenda-se: tais estereótipos raramente são
verdadeiros.
(por Marc-André Reinhard)
Como
podemos perceber se estamos sendo enganados? Será que existem sinais
claros indicando uma mentira, algo que possa ser comparado à metáfora do
nariz do Pinóquio. que se tornava cada vez maior quando ele ocultava a
verdade?
Infelizmente não.
Durante muito tempo as
pessoas acreditaram que poderiam identificar um mentiroso por
comportamentos ou sinais corporais tais como coçar a cabeça com
frequência, movimentar-se de forma agitada ou ficar com as faces
coradas.
No entanto, um grupo de pesquisadores
coordenado pela psicóloga Bella DePaulo, da Universidade da Califórnia,
em Santa Barbara (USA), garante que normalmente não é isso o que
acontece. Em 2003, DePaulo já havia reunido e analisado resultados de
120 estudos sobre o comportamento físico que acompanha as mentiras.
Conclusão:
os estereótipos raramente são verdadeiros. Em geral, mentirosos não
escorregam nervosos na cadeira, nem evitam o contato visual de seu
interlocutor.
A
essa conclusão chegaram Bella DePaulo e seu colega Charles F. Bond,
após realizarem um estudo sobre o comportamento desses estereótipos
tradicionais.
Tomando
por base esses estudos levantados por DePaulo e Bond, outros
pesquisadores chegaram à conclusão de que sinais acústicos ajudam a
reconhecer as mentiras melhor do que sinais visuais: nos experimentos,
os participantes podiam diferenciar de forma mais nítida as mentiras
quando ouviam a declaração duvidosa com atenção, em vez de observar o
falante, à procura de sinais reveladores.
Se
os participantes assistiam a um vídeo sem som, a cota de acertos eram
de apenas 52%, obtidos também por adivinhação. Mas se durante a exibição
das imagens eram apresentadas as vozes correspondentes, a cota de
acerto de seus julgamentos aumentava para 67%, nada assombroso além da
alteração estatística.
O
que de fato surpreendeu os pesquisadores foi um resultado sem grande
perda quando somente o som foi apresentado sem imagem. Ou seja: quem se
concentra apenas no comportamento físico de uma pessoa, reduz a chance
de desmascarar um mentiroso. Aparentemente, nossa visão se deixa enganar
mais facilmente do que nossa audição e pouco contribue para descobrir
afirmações falsas.
Portanto,
vale a pena prestar atenção principalmente na fala da pessoa, ficando
alerta, por exemplo, para possíveis contradições. Especialistas afirmam
que os mentirosos contumazes são, em geral, pouco plausíveis e lógicos.
Além disso, raramente admitem que tenham de corrigir sua descrição ou
que não consigam se lembrar de algo: para “encobrir os brancos da
memória” eles simplesmente inventam informações.
Se
a pessoa aparenta nervosismo e fala em tom mais alto do que o de
costume, então devemos ter cuidado: ela tem grandes possibilidades de
estar mentindo. Os estudos avaliados por Bella e Bond também revelaram
que vários participantes conseguiram reconhecer as declarações falsas de
forma mais clara quando o mentiroso foi pego de surpresa e não teve
tempo de planejar o que diria.
Desse modo, cobrar explicações imediatas pode desmascarar um discípulo em potencial do famoso Barão de Münchausen.
Na
opinião do psicólogo Aldert Vrij, pesquisador da Universidade Britânica
de Portsmouth (UK), uma boa estratégia é fazer a pessoa da qual
desconfiamos que esteja mentindo falar o máximo possível. Nesse momento
ela precisa pensar rapidamente e corre o risco de contradizer-se. E
quanto mais ela falar, mais difícil será para ela controlar tanto o
conteúdo do que diz quanto o próprio comportamento.
Pedir
para que repita trechos do que foi dito também costuma ser eficaz para
detectar brechas nos discursos. “Essa técnica de interrogatório, muito
conhecida de romances e filmes policiais revela-se, de fato, sensata”,
observa Vrij.
Um
atributo a mais para esse tema surge das análises do psicólogo Mike
Aamodt da Universidade Radford, na Virgínia (USA), indicando que não há
muita diferença entre homens e mulheres e a idade e/ou grau de instrução
de uma pessoa pouco influenciam na capacidade de detectar mentiras.
VANTAGEM DA INSEGURANÇA CONTRA A MENTIRA
Estudos
do psicólogo Patrick Müller, da Universidade de Utrecht (Holanda),
apresentam outra hipótese elaborada com base em pesquisas de 2008,
revelando que a insegurança emocional torna as pessoas mais atentas e a
prestarem mais atenção ao conteúdo das afirmações, contribuindo para
diferenciar mentiras e verdades.
Com
a aplicação de um questionário, registrou-se o grau de insegurança
emocional de 600 voluntários e, posteriormente, cada um assistiu a um
vídeo com 32 relatos de pessoas que descreviam como tinha sido para elas
enfrentar a prova para obtenção da carteira de habilitação para
motorista.
Mas
havia um porém: apenas a metade dos relatos era verdadeira, pois as
pessoas da outra metade dos relatos ainda não tinham carteira de
habilitação nem vivido a experiência de passar pela prova.
Este
resultado vem reforçar que quanto mais inseguros emocionalmente, tais
participantes tinham melhor capacidade para reconhecerem os falsos
relatos.
Para
demonstrar que a insegurança era mesmo o motivo dessa capacidade, e não
apenas um efeito colateral, foi realizado um segundo experimento, no
qual elevou-se a insegurança artificialmente. Para isso, alguns
participantes da pesquisa respondiam a duas questões: “Você é acometido
de que emoções quando assiste televisão? Como você se sente fisica e
mentalmente quando assiste ao noticiário da televisão?”.
O
resultado desse experimento comprovava: após responderem a essas duas
perguntas que evocavam emoções diversas, tais participantes se sentiam,
em geral, mais inseguros que os membros do grupo de controle não
participantes da primeira parte da pesquisa de assistir à televisão.
Após
tal resultado, todos os participantes assistiram a dois vídeos, nas
quais as pessoas falavam sobre filmes que apreciavam muito ou que não
gostaram nem um pouco. Os participantes mais inseguros diferenciaram
melhor os relatos verdadeiros e falsos: eles classificaram corretamente,
em média, 68% dos depoimentos. Os integrantes do grupo de controle,
mais confiantes e menos inseguros, tiveram uma cota de acerto de apenas
52%, mais uma vez idêntica à esperada ao acaso.
Portanto,
convém evitar o excesso de confiança na "detecção" para desmascarar um
mentiroso, pois quem acredita já conhecer uma resposta procura apenas
por indícios que a comprovem, independentemente de ser verdadeira ou
falsa.
E
se tiver que admitir que foi enganado por alguém, não fique muito
chateado. Talvez seja um consolo saber que outras pessoas também passam
por isso, como mostrou outro estudo publicado pelos psicólogos DePaulo e
Bond em 2008.
Segundo
eles, os indivíduos pouco se diferenciam em sua habilidade de
reconhecer invencionices, pois a maioria de nós é um verdadeiro fracasso
como detector de mentira. Entretanto, a amplitude da capacidade
individual de contar inverdades é maior, de forma inversamente
proporcional.
O
espectro vai do perfeito enganador até o Pinóquio humano, no qual se
percebe uma mentira mesmo a 10 metros de distância. Conclusão: para
desmascarar alguém, dependemos menos de nossa própria capacidade de
"detecção" e quase exclusivamente da habilidade do outro de esconder a
verdade.
As incríveis histórias do Barão de Münchausen
Os
relatos das aventuras do militar e proprietário de terras Karl
Friedrich Hieronymus von Münchausen (1720-1797), serviram de base para a
série As Aventuras do Barão de Münchausen, histórias fantásticas e
exageradas, voltadas para o público infanto-juvenil, compiladas por
Rudolph Erich Raspe e publicadas em Londres em 1785.
Nascido
em Bodenwerder, Alemanha, o futuro barão foi pajem de Anthony Ulrich
II, Duque de Brunswick-Lüneburg, e mais tarde entrou para o exército
russo. Serviu até 1750, participando de duas campanhas contra os turcos e
ao retornar para casa, começou a espalhar várias histórias sobre suas
aventuras.
Os
feitos incríveis incluíam viagens em bolas de canhão, jornadas para a
Lua e a fuga de um pântano ao puxar a si mesmo pelos próprios cabelos
(ou pelo cadarço das botas, dependendo da versão). Suas peripécias, que
confundem mito e realidade, inspiraram inúmeros autores e preencheram o
imaginário de gerações ao longo de mais de dois séculos.